quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ana

O nome dela é Ana*. Somos amigas há 11 anos. Nos conhecemos de uma forma peculiar, mas memorável. Ana é inteligente, doce, com opiniões sempre bem formadas. Ela gosta de música, literatura e viajar. Este último interesse inclui um lazer diferente: aprender idiomas. Inglês, alemão, russo e...francês estão na sua lista. Da última vez em que nos falamos, minha estimada Ana estava em Lille, uma bela cidadezinha ao norte da França vivendo um grande amor.

Nossos laços começaram com a presença da Cin e da Garota de Ipanema; não, não foi nas areias de uma das praias mais famosas do mundo. Foi a internet quem bateu as nossas portas. Era uma tarde típica de outono, no início do mês de abril. Após fazer os deveres de casa, entrei em um bate-papo virtual pela primeira vez na vida com o apelido de Cin – prefixo do meu nome e, conheci a Garota de Ipanema, apelido usado por Ana. Conversamos  por horas a fio. Nós duas e um moço que tinha por volta de 40 anos. Infelizmente não me recordo o nome dele. Depois de um curto espaço de tempo, cerca de duas semanas, ele desapareceu sem deixar rastros no chat. Nossas conversas  foram transferidas para e-mails, Messenger e, claro, os chats continuavam. Depois de quatro ou cinco meses, minha nova amiga teve uma ideia: nos correspondermos por cartas, o que ainda acontece até hoje, mas com menos frequência. Recebi a ideia com muito ânimo, afinal de contas, escrever sempre foi uma das atividades que sempre exerci. Ana enviou a primeira. Eram inúmeras folhas (meu recorde foram 7 ou 9), adesivos, pequenas lembranças, presentes de aniversário e disquetes (já não existem mais). Lembro perfeitamente como foi o momento em que recebi a primeira correspondência: cheguei em casa e meu pai sorrindo disse: “carta para você!” Corri imediatamente para o meu quarto e li com voracidade. O meu cansaço não permitiu que eu respondesse imediatamente. Minha resposta surgiu no dia seguinte em plena aula de geometria, que nunca foi útil, é claro. O único retângulo que atraía a minha atenção era a folha A4 do meu caderno.

Ana é paulista, mora em Curitiba, mas sempre mostrou uma grande atração pelo Rio de Janeiro. Mesmo que eu juntasse todas as amizades de meu colégio, elas não exerceriam uma comoção em mim como a verdadeira amizade de Ana. Nossos gostos e maturidades se uniram de uma forma imediata. Depois de cerca de vinte cartas enviadas e recebidas e três anos de amizade, nos conhecemos. O nosso encontro foi inusitado, como tudo que estava ao nosso redor. Ele ocorreu em meu colégio no final do semestre. Ana tinha vindo ao Rio acompanhada de Elaine, sua mãe. Elaine estava a trabalho na cidade por alguns poucos dias e Ana aproveitou para passear. Ela precisava voltar logo a Curitiba, antes mesmo da mãe, mas antes teve mais uma fantástica ideia: fugir do aeroporto escondida da mãe e ir me ver no colégio. Até então, nossos pais não sabiam muito bem sobre a nossa amizade. Imagina como iriamos explicar tudo... Ela chegou de táxi na minha escola no meio de uma aula de história (que também não estava interessante). O inspetor interrompeu a aula da minha turma para chamar meu nome em voz bem alta e avisar que minha amiga estava lá embaixo. Desci as escadas e tudo que havíamos conversado por horas e papéis passaram em minha cabeça como um flash cinematográfico. Estávamos tímidas, mas trocamos o melhor abraço do mundo. “Fugi” do colégio para levá-la ao aeroporto. Havia trânsito. As favelas mais perigosas do Rio, naquela época, que cruzavam o caminho até o aeroporto eram lindas para Ana. A mãe dela poderia descobrir. A minha, idem. Era um risco. Uma das aventuras mais gostosas de minha vida. Tudo deu certo no final e aquele último abraço (literalmente) fez com que “Samba do avião”, clássico Jobineano, que ela me apresentara há meses, ressoasse em minha cabeça. Voltei para a casa de minha avó feliz (até esse momento infantil não existe mais); o refrão “Veja o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade...” nunca mais saiu de minha recordação.

Nossas cartas continuaram. Nossas vidas se tornaram mais coloridas. Sorrimos, choramos, tivemos viagens, amores, doenças, vidas amadas que se foram...
Tudo em nós continua igual, ou quase. Nossas almas “continuam cantando”, seja no Rio, São Paulo, Curitiba ou na França.


*nome fictício dado pela própria

2 comentários:

  1. Cin! Quantos sorrisos e risos, fortes recordações e sentimentos este seu lindo texto me arrancou. Guardo com muito carinho as memórias (e cartas) de nossa amizade. Eu tinha 13 anos e você ia fazer 15, e você foi a primeira grande amiga que eu tive. As nossas conversas eram fascinantes (que o diga meu pai, com as singelas contas telefônicas)! E ainda o são. Crescemos as duas, e crescimento pressupõe um aumento do fardo cotidiano e menos cartas trocadas. Mas a distância nunca nos foi um problema, nunca nos privou de uma belíssima amizade!

    Que nostalgia me trouxe. Lembro-me como esperava todos os dias pelo momento que eu chegaria na firma de meu pai para "trabalhar", para poder entrar na internet e conversar com desconhecidos sobre poesia. Eu era uma criança e naquele chat só tinha gente esquisita, eu não entendia por que faziam questão de sexualizar um apelido que não passava de uma pequena homenagem ao mestre Jobim. E por isso sumi assim, de repente, mas nunca me passaria pela cabeça perder contato com aquela menina, talvez a única do mundo com a minha idade e gostos parecidos dos meus.

    Lembro-me de quando te enviei uma mensagem no celular. Naquela época, custava uma pequena fortuna , logo desisti da ideia. Eu também me lembro bem de quando te liguei pela primeira vez: eu escutava mpb ao fundo, e estávamos as duas tímidas, sem saber do que falar, mas acabamos passando horas discutindo tantas coisas que fascinavam a nós duas. Lembro-me bem também quando me surgiu a ideia de trocarmos correspondência: do nada, me deu uma vontade de escrever, de poder compartilhar de algum outro modo o meu mundo de Curitiba. Eu escrevi algumas folhas, incluí folhas de fichário, um disquete, e inclusive um presente (uma pequena caneta, que nunca chegou ao seu destino... aí aprendemos a fechar as cartas com cola). Também lembro da alegria enorme com que recebi a minha primeira carta sua. E que fascínio a troca de cartas acabaria por me despertar...!

    E o Rio? Para mim, seria um sonho morar na Cidade Maravilhosa. Aí surgiu a viagem, foi realmente como se este sonho tivesse virado realidade... com um porém: chegou o fim da viagem e não tinha tido chance alguma de conhecer a minha grande amiga que habitava essas lindas terras. Mas sim, fomos as duas loucas e eu consegui atravessar a cidade com 30 reais. Ou foram 20? E como foi memorável encontrar a grande amiga que eu conhecia já há 1/5 de minha vida (três anos na vida de quem tem 15 são grande coisa, não?) e que me era tão cara!

    Engraçado como nunca precisamos morar na mesma cidade para termos uma grande amizade. Talvez não moremos mais no mesmo país, mas não temo pela nossa amizade: distância nunca quis dizer muito, mesmo. As alegrias, as tristezas, as memórias compartilhadas e meu o sentimento de carinho por você estarão sempre lá. Provavelmente, mesmo os meus netinhos saberão desta grande amiga que eu tive. (E não precisa nem dizer o quanto você será bem-vinda se quiser me visitar!)

    Seu estilo de escrita é simplesmente lindo, Cin. Comovente, mesmo. Nem tenho palavras para descrever, mas realmente mexeu comigo. E não digo isso porque o texto me envolve! Você precisa escrever um livro.

    No mais, agradeço aquela tarde de outono, em que nem eu nem você tínhamos ideia fixa do que fazer. Incrível como as maiores surpresas da vida nascem do acaso (como os ingleses dizem: "serendipity"). E incrível como o tempo foge: somos amigas há 11 anos, quase metade de nossas vidas.

    E neste tempo todo que passou, a sua amizade me trouxe belíssimas notas em minha própria canção. De coração: muito obrigada. ♥

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  2. Nossa! Me comovi além da conta e o comentário acabou maior do que o post. Da próxima vez, tentarei economizar mais em palavras!

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