domingo, 22 de setembro de 2013

Ela era ela...

Era a primeira vez que eu a via daquele jeito. Sentada, de costas para a parede, com as mãos tocando os joelhos. Seus olhos da cor da Baía da Guanabara procuravam algo enquanto vislumbrava o meu corpo; não, ela não queria nada comigo naquele pequeno instante. A minha aceitação talvez fosse importante para o que ela desejava fazer.

"Seda", ela dizia de forma quase intuitiva. Finalmente, ela achou um pedaço de uma - tão branca como a cor de sua pele.
E eis que começava o seu ofício; seu trabalho era semelhante a de um artesão ao se deliciar com um novo tecido. Esticava-o. Amassava-o. Sentia-o. Olhava para ele e para mim. Ela precisava se decidir. Agora, procurava o seu pequeno embrulho. Era a pedra. O beck. A Marijuana. A vez de fumar um. A minha angústia. O pó se esfarelava em seus longos e agitados dedos. Eu sentia medo e sequer esboçava reações. A minha falta de ar a preocupava. A solução era ela deixar o próprio quarto e ir para o escritório. A minha posição continuava a mesma desde o início: deitada, quase recostada na cama, com os braços ainda cruzados. Impotente e ainda infantil. Enquanto ela se balançava na rede, eu ia pensar na vida.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ana

O nome dela é Ana*. Somos amigas há 11 anos. Nos conhecemos de uma forma peculiar, mas memorável. Ana é inteligente, doce, com opiniões sempre bem formadas. Ela gosta de música, literatura e viajar. Este último interesse inclui um lazer diferente: aprender idiomas. Inglês, alemão, russo e...francês estão na sua lista. Da última vez em que nos falamos, minha estimada Ana estava em Lille, uma bela cidadezinha ao norte da França vivendo um grande amor.

Nossos laços começaram com a presença da Cin e da Garota de Ipanema; não, não foi nas areias de uma das praias mais famosas do mundo. Foi a internet quem bateu as nossas portas. Era uma tarde típica de outono, no início do mês de abril. Após fazer os deveres de casa, entrei em um bate-papo virtual pela primeira vez na vida com o apelido de Cin – prefixo do meu nome e, conheci a Garota de Ipanema, apelido usado por Ana. Conversamos  por horas a fio. Nós duas e um moço que tinha por volta de 40 anos. Infelizmente não me recordo o nome dele. Depois de um curto espaço de tempo, cerca de duas semanas, ele desapareceu sem deixar rastros no chat. Nossas conversas  foram transferidas para e-mails, Messenger e, claro, os chats continuavam. Depois de quatro ou cinco meses, minha nova amiga teve uma ideia: nos correspondermos por cartas, o que ainda acontece até hoje, mas com menos frequência. Recebi a ideia com muito ânimo, afinal de contas, escrever sempre foi uma das atividades que sempre exerci. Ana enviou a primeira. Eram inúmeras folhas (meu recorde foram 7 ou 9), adesivos, pequenas lembranças, presentes de aniversário e disquetes (já não existem mais). Lembro perfeitamente como foi o momento em que recebi a primeira correspondência: cheguei em casa e meu pai sorrindo disse: “carta para você!” Corri imediatamente para o meu quarto e li com voracidade. O meu cansaço não permitiu que eu respondesse imediatamente. Minha resposta surgiu no dia seguinte em plena aula de geometria, que nunca foi útil, é claro. O único retângulo que atraía a minha atenção era a folha A4 do meu caderno.

Ana é paulista, mora em Curitiba, mas sempre mostrou uma grande atração pelo Rio de Janeiro. Mesmo que eu juntasse todas as amizades de meu colégio, elas não exerceriam uma comoção em mim como a verdadeira amizade de Ana. Nossos gostos e maturidades se uniram de uma forma imediata. Depois de cerca de vinte cartas enviadas e recebidas e três anos de amizade, nos conhecemos. O nosso encontro foi inusitado, como tudo que estava ao nosso redor. Ele ocorreu em meu colégio no final do semestre. Ana tinha vindo ao Rio acompanhada de Elaine, sua mãe. Elaine estava a trabalho na cidade por alguns poucos dias e Ana aproveitou para passear. Ela precisava voltar logo a Curitiba, antes mesmo da mãe, mas antes teve mais uma fantástica ideia: fugir do aeroporto escondida da mãe e ir me ver no colégio. Até então, nossos pais não sabiam muito bem sobre a nossa amizade. Imagina como iriamos explicar tudo... Ela chegou de táxi na minha escola no meio de uma aula de história (que também não estava interessante). O inspetor interrompeu a aula da minha turma para chamar meu nome em voz bem alta e avisar que minha amiga estava lá embaixo. Desci as escadas e tudo que havíamos conversado por horas e papéis passaram em minha cabeça como um flash cinematográfico. Estávamos tímidas, mas trocamos o melhor abraço do mundo. “Fugi” do colégio para levá-la ao aeroporto. Havia trânsito. As favelas mais perigosas do Rio, naquela época, que cruzavam o caminho até o aeroporto eram lindas para Ana. A mãe dela poderia descobrir. A minha, idem. Era um risco. Uma das aventuras mais gostosas de minha vida. Tudo deu certo no final e aquele último abraço (literalmente) fez com que “Samba do avião”, clássico Jobineano, que ela me apresentara há meses, ressoasse em minha cabeça. Voltei para a casa de minha avó feliz (até esse momento infantil não existe mais); o refrão “Veja o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudade...” nunca mais saiu de minha recordação.

Nossas cartas continuaram. Nossas vidas se tornaram mais coloridas. Sorrimos, choramos, tivemos viagens, amores, doenças, vidas amadas que se foram...
Tudo em nós continua igual, ou quase. Nossas almas “continuam cantando”, seja no Rio, São Paulo, Curitiba ou na França.


*nome fictício dado pela própria