O nome dela é Ana*. Somos
amigas há 11 anos. Nos conhecemos de uma forma peculiar, mas memorável. Ana é
inteligente, doce, com opiniões sempre bem formadas. Ela gosta de música,
literatura e viajar. Este último interesse inclui um lazer diferente: aprender
idiomas. Inglês, alemão, russo e...francês estão na sua lista. Da última vez em
que nos falamos, minha estimada Ana estava em Lille, uma bela cidadezinha ao
norte da França vivendo um grande amor.
Nossos laços começaram com a
presença da Cin e da Garota de Ipanema; não, não foi nas areias de uma das
praias mais famosas do mundo. Foi a internet quem bateu as nossas portas. Era
uma tarde típica de outono, no início do mês de abril. Após fazer os deveres de
casa, entrei em um bate-papo virtual pela primeira vez na vida com o apelido de
Cin – prefixo do meu nome e, conheci a Garota de Ipanema, apelido usado por
Ana. Conversamos por horas a fio. Nós
duas e um moço que tinha por volta de 40 anos. Infelizmente não me recordo o
nome dele. Depois de um curto espaço de tempo, cerca de duas semanas, ele
desapareceu sem deixar rastros no chat. Nossas conversas foram transferidas para e-mails, Messenger e,
claro, os chats continuavam. Depois de quatro ou cinco meses, minha nova amiga
teve uma ideia: nos correspondermos por cartas, o que ainda acontece até hoje,
mas com menos frequência. Recebi a ideia com muito ânimo, afinal de contas,
escrever sempre foi uma das atividades que sempre exerci. Ana enviou a
primeira. Eram inúmeras folhas (meu recorde foram 7 ou 9), adesivos, pequenas
lembranças, presentes de aniversário e disquetes (já não existem mais). Lembro
perfeitamente como foi o momento em que recebi a primeira correspondência:
cheguei em casa e meu pai sorrindo disse: “carta para você!” Corri
imediatamente para o meu quarto e li com voracidade. O meu cansaço não permitiu
que eu respondesse imediatamente. Minha resposta surgiu no dia seguinte em
plena aula de geometria, que nunca foi útil, é claro. O único retângulo que
atraía a minha atenção era a folha A4 do meu caderno.
Ana é paulista, mora em
Curitiba, mas sempre mostrou uma grande atração pelo Rio de Janeiro. Mesmo que
eu juntasse todas as amizades de meu colégio, elas não exerceriam uma comoção
em mim como a verdadeira amizade de Ana. Nossos gostos e maturidades se uniram
de uma forma imediata. Depois de cerca de vinte cartas enviadas e recebidas e
três anos de amizade, nos conhecemos. O nosso encontro foi inusitado, como tudo
que estava ao nosso redor. Ele ocorreu em meu colégio no final do semestre. Ana
tinha vindo ao Rio acompanhada de Elaine, sua mãe. Elaine estava a trabalho na
cidade por alguns poucos dias e Ana aproveitou para passear. Ela precisava voltar logo a Curitiba, antes mesmo da mãe, mas antes teve mais uma fantástica
ideia: fugir do aeroporto escondida da mãe e ir me ver no colégio. Até então,
nossos pais não sabiam muito bem sobre a nossa amizade. Imagina como iriamos
explicar tudo... Ela chegou de táxi na minha escola no meio de uma aula de
história (que também não estava interessante). O inspetor interrompeu a aula da
minha turma para chamar meu nome em voz bem alta e avisar que minha amiga estava lá embaixo. Desci as escadas e tudo que havíamos
conversado por horas e papéis passaram em minha cabeça como um flash cinematográfico.
Estávamos tímidas, mas trocamos o melhor abraço do mundo. “Fugi” do colégio
para levá-la ao aeroporto. Havia trânsito. As favelas mais perigosas do Rio,
naquela época, que cruzavam o caminho até o aeroporto eram lindas para Ana. A
mãe dela poderia descobrir. A minha, idem. Era um risco. Uma das aventuras mais
gostosas de minha vida. Tudo deu certo no final e aquele último abraço
(literalmente) fez com que “Samba do avião”, clássico Jobineano, que ela me
apresentara há meses, ressoasse em minha cabeça. Voltei para a casa de minha avó feliz
(até esse momento infantil não existe mais); o refrão “Veja o Rio de Janeiro,
estou morrendo de saudade...” nunca mais saiu de minha recordação.
Nossas cartas continuaram.
Nossas vidas se tornaram mais coloridas. Sorrimos, choramos, tivemos viagens,
amores, doenças, vidas amadas que se foram...
Tudo em nós continua igual, ou
quase. Nossas almas “continuam cantando”, seja no Rio, São Paulo, Curitiba ou
na França.
*nome fictício dado pela
própria